Há algo que me fascina na análise dos dados do SRIJ: revelam um mercado que cresceu mais rápido do que a maioria das projeções antecipavam, com um perfil de apostador que está a mudar, e com tendências tecnológicas que vão redefinir o produto nos próximos anos. Para quem aposta com seriedade, perceber o mercado em que opera — a sua dimensão, a sua estrutura, quem são os outros participantes — é parte da literacia que raramente é discutida. Comecemos pelos números.
Volume de apostas e receita bruta: os números do SRIJ
Em 2024, o volume total de apostas desportivas online em Portugal atingiu um recorde histórico de 2.053,2 milhões de euros — o valor mais elevado desde a regulamentação do mercado. A receita bruta (GGR) das apostas desportivas nesse mesmo ano foi de 433,4 milhões de euros, superando o anterior máximo de 324,4 milhões registado em 2023. São números que colocam Portugal entre os mercados europeus de apostas com maior crescimento relativo.
Para contextualizar: no quarto trimestre de 2024 isolado, a receita bruta das apostas desportivas foi de 138,3 milhões de euros — um aumento de 90% face ao mesmo período de 2023. As receitas anuais totais do jogo online em Portugal em 2024 fecharam em 1,1 mil milhões de euros, com os portugueses a apostarem em média 56 milhões de euros por dia. O Estado cobrou 334,7 milhões de euros em receita fiscal direta (IEJO) no mesmo ano.
Especialistas da Deloitte referidos em análise sectorial estimam que cada ponto percentual de crescimento do GGR digital acrescenta 5 milhões de euros à cobrança de IEJO — o que explica o interesse regulatório continuado no desenvolvimento do mercado. A análise da Aposta Legal confirma que “o jogo e as apostas online em Portugal continuam em expansão” com o número de jogadores registados a atingir 4,9 milhões até 2025, um crescimento de 9,9% face ao período homólogo de 2024.
O futebol mantém a posição dominante no mix de apostas desportivas. No terceiro trimestre de 2025, representava 71,8% do total de apostas desportivas; o ténis correspondia a 22,1% e o basquetebol a 6,1%. Os dados do quarto trimestre de 2024 tinham mostrado futebol em 75%, com a UEFA Champions League, a Primeira Liga portuguesa e a Premier League inglesa como as três competições com maior volume — cada uma com cerca de 10,7%, 10,7% e 10,1% respectivamente.
Perfil do apostador português: quem aposta e quanto
O apostador português médio de 2025 é predominantemente masculino — 85% do total — embora a participação feminina tenha crescido de forma relevante, partindo dos 8% registados em 2022. Os distritos do Porto e Lisboa concentram a maioria dos apostadores registados, com 21,2% e 20,7% respetivamente, seguidos de Braga, Setúbal e Aveiro.
A estrutura etária revela um mercado jovem: 32,5% dos novos apostadores têm entre 18 e 24 anos, e 29,8% situam-se na faixa dos 25 aos 34 anos. Mais de 60% dos apostadores ativos têm menos de 35 anos — um dado que tem implicações tanto para os operadores (produto mobile-first, UX simplificada) como para a abordagem regulatória (maior vulnerabilidade a comportamentos de risco em faixas etárias jovens).
Do ponto de vista socioeconómico, 45% dos apostadores ativos têm rendimento mensal entre 900 e 1.500 euros, e 30% situam-se entre 1.500 e 2.500 euros. O apostador tipo não é de alta renda — o que tem implicações para a forma como o mercado deve ser regulado e para a consciência de gestão de banca que cada apostador deve ter em função do seu contexto financeiro real.
Um detalhe comportamental relevante: apostadores que utilizam códigos promocionais apostam em média 3,4 vezes por semana, contra 2,2 vezes para o apostador médio sem código, com valor médio por aposta de 8,50 euros versus 12,20 euros. A frequência mais alta e o stake médio mais baixo sugerem apostadores mais casuais que respondem a incentivos de marketing mas com menor comprometimento financeiro por aposta.
Tendências 2025-2026: mobile, eSports e regulação
As apostas via smartphone ultrapassaram 80% do total de apostas online em Portugal em 2024-2025. Esta proporção vai continuar a crescer — não apenas porque os smartphones são o dispositivo principal da faixa etária dominante de apostadores, mas porque os operadores estão a investir cada vez mais em experiências mobile nativas que tornam o apostador menos dependente de qualquer outro canal.
Os eSports, que representavam 2,8% do GGR do jogo online em Portugal em 2025, devem duplicar até ao final de 2026. O segmento é alimentado pela mesma geração jovem que domina a base de apostadores, e os operadores estão a expandir a cobertura de títulos e torneios para capturar esta procura crescente. A análise da Embanewsonline sobre o mercado português de 2026 é direta: “o apostador português tornou-se mais exigente. Pesquisa, compara plataformas, analisa mercados e valoriza tanto a segurança como a rapidez.”
Do lado regulatório, o SRIJ continua a endurecer a fiscalização de operadores ilegais — bloqueou 122 sites ilegais e emitiu 41 notificações de cessação de atividade apenas no quarto trimestre de 2024. O crescimento do número de autoexcluídos (342.200 em setembro de 2025, mais 36% face a 2023) está a impulsionar discussão sobre reforço das ferramentas de jogo responsável. Apostadores que operam no mercado regulado estão a beneficiar de um ambiente progressivamente mais transparente e protegido.
